segunda-feira, 27 de junho de 2016

Dilma: Perícia do Senado deixa claro que o impeachment é um golpe



Foto: Reprodução
 
 

"Ficou caracterizado, pela própria perícia feita pelo Senado da República, que os motivos pelos quais eles me acusam não caracterizam crime. No que se refere ao Plano Safra, a minha presença em nenhuma ato foi constatada. Por tanto, consideraram que eu não participei em nenhum momento do Plano Safra porque isso não é papel do presidente da República. Nós viemos dizendo isso há muito tempo, mas agora a própria perícia do Senado constatou isso", afirmou a presidenta.

Sobre os três dos quatro decretos de crédito que a perícia afirma serem "incompatíveis" com a meta fiscal do ano passado, ela enfatizou: "Nós começamos sendo acusados de seis decretos (...) Agora, a própria perícia do Senado diz que não são seis decretos, são três decretos. E nesses três decretos, também não foi constatada nenhuma participação minha dolosa. Ou seja, não há em nenhum momento um alerta ou um parecer técnico ou uma avaliação que diga: 'Presidenta, se você assinar esse decreto, você estará comprometendo a meta fiscal'. Não houve isso".

E acrescenta: "Então, cada dia que passa, fica mais claro que esse é um processo de impeachment sem base legal. E por isso, se caracterizaria como um golpe".



Do Portal Vermelho, com informações de agências

Dilma: Só pelo golpe conseguirão fazer o que pretendem com o pré-sal



 
 

Na entrevista, Dilma voltou a rechaçar as medidas do governo provisório de Michel Temer e lembrou que essas propostas não encontram respaldo na população.

“O que estão querendo fazer é um absurdo. Alterar o regime de partilha é, de fato, um absurdo”, disse a presidenta. “Eles jamais conseguiriam fazer com o pré-sal o que pretendem sem ser através de métodos absolutamente fraudulentos e golpistas. Por eleição direta não fariam. E eles não ganham eleição direta há muitos anos. Então, eu acho que tentaram encurtar o caminho... Eles também vão reduzir a saúde, acabar com o Minha Casa, Minha Vida. Já acabaram! Porque acabaram já com a faixa 1. A faixa 1 é a faixa pobre do Oiapoque ao Chuí”, completou.

Dilma fala também sobre os efeitos das manobras golpistas para a democracia da América Latina. “Eu acho que é uma nova forma de retirar governos que criam descontentamento [em relação] à oligarquia econômica, ou política, ou um grupo de interesses, que se considera descontente em relação a alguma das características do governo em exercício. Aí o que eles fazem? Dão um golpe parlamentar. Em que consiste um golpe parlamentar? Ele não é igual a um golpe militar. Um golpe militar não só extingue o governo em questão, mas acaba também com o regime democrático. Tem uma característica: você tira o governo e mantém o regime democrático”, destacou a presidenta.

Segundo ela, essas manobras tem um preço. “Você compromete suas instituições, você cria cicatriz na sociedade. Você, muitas vezes, impede a recomposição do tecido democrático. Então tem uma consequência grave. E acho que criará, na América Latina, uma instabilidade”, afirmou.

A presidenta fez uma análise da conjuntura política que culminou na atual crise que enfrentamos. Ela lembrou das manifestações de junho de 2013.

“O que aconteceu em junho de 2013? Quando você conquista direitos, isso não significa que as pessoas se sentem de uma certa forma contempladas inteiramente. Pelo contrário, a conquista de um direito abre espaço para a conquista de outros direitos. Por isso que a gente dizia: a superação da pobreza é só um começo. Ela não é o fim de nada, ela inicia. E o que a gente levantava é que, para um Estado excludente, como foi sempre o Estado brasileiro, porque era parte de uma sociedade excludente, de uma economia excludente, é mais fácil o processo no qual você transfere renda. Quando você transfere renda, é uma decisão política; é óbvio que você tem que fazer um bom programa. Eu não estou diminuindo o inusitado e até revolucionário que é o Bolsa Família. É uma grande conquista, mas, assim que você faz isso ser massivo, as pessoas querem acesso a serviços de qualidade, querem serviços de educação de qualidade, querem segurança pública de qualidade. A reivindicação implica uma mudança do Estado, que tem um tempo de maturação maior. Há um conflito, então, visível entre a rapidez com que o ganho de renda se dá e a rapidez com que o ganho de serviços ocorre. O ganho na área de serviços é mais lento. Daí a inconformidade também”, analisou.

Dilma lembra ainda que naquele momento se desencadeou um processo de insatisfação política. “Não sei se vocês se lembram, em muitas manifestações, quando era positivo para uma pessoa, diziam: “Me representa! Me representa!”. Eu acho que já naquele momento, não da forma aberta como a partir de um determinado momento começou a ocorrer, aí também por conta das investigações de corrupção, mas começa a ocorrer um mal-estar com esse sistema de representação, que não é só típico do Brasil, esse mal-estar com a representação se dá em relação ao mundo todo. Mesmo considerando que o nosso governo sempre teve uma pauta, e agora isso vai ficar bem nítido, de participação popular. O Brexit, falando de hoje, explica um pouco o que acontece. Da direita à esquerda, viu?”, disse.

Sobre as investigações da Lava Jato e os vazamentos para espetacularização da mídia, Dilma afirmou: “Isso tem sido feito sistematicamente contra mim. Sistematicamente. A última que arquivaram foi aquela em que quase caiu o mundo na minha cabeça porque eu liguei para o Lula e falei: “Vou mandar aí o Bessias”. Agora foi arquivado. Agora, o pato que eu pago enquanto não está arquivado é imenso. E eu me recuso a discutir Marcelo Odebrecht numa delação que nem acabou. Tem vazamento daquilo que não foi feito, tem vazamento… e tudo seletivo. Primeiro vaza eu e fazem um escândalo com isso. E depois aparece o resto. Como que fica?”, destacou.

Dilma disse que ao retomar o seu mandato vai fazer um governo de transição. “Porque é um governo que vai ter dois anos, e o que nós temos de garantir neste momento é a qualidade da democracia no Brasil, o que vai ocorrer em 2018. Eu farei isso, sobretudo. Acho que cabe a discussão de uma reforma política no Brasil, sem dúvidas”. 


Do Portal Vermelho, com informações da Agência Pública

Sem votos para impeachment, Temer discursa até em festa de aniversário


Reprodução
Neste domingo (26), Temer foi até a festa de aniversário de Wilder Morais (PP), em Goiás
Neste domingo (26), Temer foi até a festa de aniversário de Wilder Morais (PP), em Goiás

De acordo com fontes da grande mídia, no trajeto entre a base aérea de Goiás e a fazenda de Morais, Temer fez as contas dos votos para aprovar o golpe contra o mandato de Dilma e viu que ainda não é suficiente. Segundo matéria publicada pelo O Globo, Temer "orientou os líderes a mapearem dificuldades de indecisos e encaminhá-las para ele resolver".

Na festa, Temer também fez discurso dizendo que "quer unir o Brasil". “Quero dizer que, na nossa interinidade, o que nós estamos tentando fazer é unir o país. Queria que você [Wilder] me mandasse uma fotografia desse conjunto, dessas pessoas que estão aqui. Porque eu quero usar como um fenômeno de unidade no nosso país. Os brasileiros têm que estar unidos para tirar o país da crise”, disse Temer.

O discurso de Temer fez lembrar do lendário Odorico Paraguaçu, personagem criada pelo dramaturgo brasileiro Dias Gomes e vivido, na televisão na novela O Bem Amado, pelo ator Paulo Gracindo. Odorico era prefeito da cidade da cidade de Sucupira e se caracterizava pela obsessão em inaugurar o único cemitério da cidade, construído como a principal promessa de sua campanha para prefeito. Já Temer tem como obsessão a Presidência.

Apesar de contar com 4 mil convidados, a festa realizada na fazenda do senador não conseguiu segurar Temer por muito tempo. Praticamente entrou e saiu ficando apenas por 30 minutos no local.

No discurso, Temer rasgou elogios a história do senador do PP e ressaltou que o Brasil permitiu que ele traçasse o caminho que o levou ao seu atual posto. “O Brasil, um país extraordinário, permitiu que o Wilder saísse de Taquaral [de Goiás] e chegasse onde chegou. Eu, meus amigos, sou filho de imigrantes, sou da primeira geração e cheguei onde cheguei. Portanto, meus amigos, viva o Brasil, viva Goiás e viva o Wilder”, concluiu.



Do Portal Vermelho, com informações de agências

domingo, 26 de junho de 2016

ALEXANDRINO, DA ODEBRECHT, QUERIA CONTAR TUDO, MAS MP SÓ QUER SABER DO PT

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Preso por quatro meses na Operação Erga Omnes, 14ª fase da Java Jato, o executivo, libertado há cerca de um mês, tem dito a amigos que, em seus depoimentos na prisão, propôs contar tudo o que sabia sobre as relações da companhia com os governos brasileiros ao longo de mais de 20 anos como funcionário de carreira do grupo; “Mas, não se interessaram em saber tudo. Só quiseram informações dos últimos 12 anos”; Alexandrino (na foto com Eliseu Padilha, ministro dos Transportes de FHC) foi diretor de Relações Institucionais da Odebrecht e ex-vice-presidente da Braskem; declaração evidencia que houve malfeitos também nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB)

247 - O ex-executivo da Odebrecht Alexandrino de Alencar, que ficou preso por quatro meses com a deflagração da 14ª fase da operação Lava Jato, e libertado há cerca de um mês, tem dito a amigos que, em seus depoimentos na prisão, propôs contar tudo o que sabia sobre as relações da companhia com os governos brasileiros ao longo de mais de 20 anos como funcionário de carreira do grupo. “Mas, não se interessaram em saber tudo. Só quiseram informações dos últimos 12 anos”, assim Alexandrino tem dito.


O período a que o Ministério Público Federal (MPF) se interessa é relativo tão somente aos anos do PT no poder. Alexandrino, que foi diretor de Relações Institucionais da Odebrecht e ex-vice-presidente da Braskem, deixa implícito que houve malfeitos também nos dois governos do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2001). A recusa do MPF é mais um indício evidente de que a Operação Lava Jato não se propõe à decantada uma faxina ética no país, mas resume-se a expurgar o PT do poder.
Quando da prisão de Alexandrino na Operação Erga Omnes, a PF informou ao juiz federal Sérgio Moro que o ex-presidente Lula havia conversado com o executivo em 15 de junho de 2015. Quatro dias depois do telefonema, Alexandrino Alencar foi preso.
Segundo o relatório, Lula estaria preocupado com ‘assuntos do BNDES’. Em depoimento, em 12 de maio deste ano, Alexandrino afirmou à Polícia Federal que recebeu ’em quatro ou cinco oportunidades’ Rafael Ângulo Lopez, apontado pela força-tarefa da Operação Lava Jato como carregador de malas de dinheiro do doleiro Alberto Youssef.
Na ocasião, Alexandrino contou que se reuniu em pelo menos duas ocasiões em hotéis de São Paulo com o ex-deputado José Janene (PP-PR) – morto em 2010 -, e com o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa.
Segundo o executivo da maior empreiteira do País também participaram dos encontros o doleiro Alberto Youssef e o ex-assessor parlamentar João Cláudio Genú, homem de confiança de Janene no Congresso.
Como se vê, nada foi relatado a respeito do período tucano no poder.
Fonte: www.brasil247.com/

Mais uma bomba no telhado de vidro de Temer

Beto Barata: <p>Brasília - DF, 08/06/2016. Presidente Interino Michel Temer durante encontro com Líderes Empresariais. Foto: Beto Barata/PR</p>


A manchete da revista Época desta semana (leia aqui) é mais uma bomba que explode no Palácio do Jaburu: “Operador ligado a Temer admite ter recebido R$ 1 milhão da Engevix. Delator da Lava Jato, sócio da empreiteira afirma que o dinheiro era propina por obra na usina nuclear Angra 3”. 
 
Somado ao 1,5 milhões de propina denunciados e reafirmados por Sérgio Machado já são 2,5 milhões de propina nas costas do presidente interino.
   
A reportagem traz uma descrição detalhada do caminho da propina, sem deixar margem a dúvidas.
 
As duas acusações referem-se ao período em que Temer foi – como ainda é – vice-presidente da República. Podem ser usadas, portanto, como argumentos para ser aberto um processo de impeachment dele, muito mais contundente do que o que foi engavetado por Eduardo Cunha, que diz respeito às mesmas pedaladas fiscais usadas contra Dilma.
   
O detalhe é que tem que ser deflagrado enquanto ele ainda é o vice-presidente. Se o impeachment for confirmado, quando agosto vier, essas bombas perdem seu efeito, segundo a constituição-cidadã de 1988.
 
A notícia deverá ser repercutida nos demais meios de comunicação das Organizações Globo (dona da revista Época), tais como suas rádios, sites e, principalmente, no Jornal Nacional que tem sido uma das principais fontes dos pesadelos de Temer.
   
Embora a TV Globo tem sido acusada de “golpista”, por ter insuflado seus 30 milhões de telespectadores a saírem nas ruas para pedir o impeachment de Dilma, não se pode esquecer que, em 1989 a mesma Globo apoiou acintosamente Fernando Collor na disputa com Lula, mas, em 1992, diante das inequívocas provas de sua corrupção, ajudou a derrubá-lo, pois, tal como nas suas novelas, no Jornal Nacional também o Bem tem que vencer o Mal. Nada a estranhar, portanto.
   
Mas não é só para ficar ao lado do Bem que a Globo resolveu mostrar a verdadeira face do governo Temer antes que seu governo provisório se torne definitivo. Temer cometeu o erro primário de entregar o importante ministério da Indústria e Comércio à TV Record, principal concorrente da Globo no ibope e, portanto, na divisão das verbas de propaganda que escassearam nos últimos tempos.
   
Nenhum governo, nos últimos cinquenta anos, desmanchou-se tão rapidamente como este. Jânio, com todas as suas excentricidades aguentou-se quase oito meses; Jango, fustigado aqui dentro e de fora para dentro ficou três anos; Collor, à frente da sua República de Alagoas segurou-se por dois anos; mas o governo interino de Temer, em pouco mais de um mês já balança, balança, balança.
   
Se a Câmara dos Deputados não estivesse conturbada como está, uma verdadeira Casa da Mãe Joana onde ninguém sabe quem manda, nem o STF fosse tão lento, devagar quase parando, essas bombas já teriam explodido o Jaburu.
   
De qualquer modo, o telhado de vidro de Temer está aos cacos e seu discurso ético cada vez mais abafado.

Fonte: www.brasil247.com/

Profissionais da educação realizam ato em frente ao MEC


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No próximo dia 29 de junho, os trabalhadores em educação estarão reunidos em uma grande mobilização, na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Ministério da Educação, em Brasília.
O ato, organizado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) é em defesa da democracia, da educação pública e dos direitos dos trabalhadores em educação.
Além disso, os profissionais protestam contra a plataforma do governo interino de Michel Temer, pautada no programa “Uma Ponte para o Futuro” que representa uma ameaça concreta ao direito à educação pública e às conquistas dos trabalhadores e das trabalhadoras em educação na última década.
Entre as medidas previstas estão, o fim da vinculação de impostos e contribuições para as políticas sociais; o fim das receitas do petróleo para a educação e a saúde; privatização da educação básica e superior; a ameaça ao piso do magistério e à política salarial dos servidores públicos e o fim da aposentadoria especial do magistério.
Apoiam o evento a União Nacional dos Estudantes (Une), União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico Técnico e Tecnológico (PROIFES), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (CONTEE), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Campanha Nacional pelo Direito à Educação e o Movimento Interfóruns da Educação Infantil do Brasil (Mieib).
Fonte: www.cnte.org.br/

Um golpe, duas facções


Amplia-se divisão no governo — entre os que exigem medidas antipopulares e o grupo fisiológico. Disputa é promissora, mas também perigosa. Ela ressuscita o espectro de 1964
BRAZILIAN PRESIDENTIAL CANDIDATE SERRA CHATS WITH BRAZILIAN DEMOCRATIC MOVEMENT PARTY PRESIDENT TEMER.
Por Paulo Bearzoti Filho da coordenação do MTST do Paraná
Governo interino, plano de longo prazo
Recessivo, privatista, insensível aos parcos direitos sociais duramente conquistados nos últimos 25 anos, o pacote de medidas econômicas e fiscais anunciado em 24 de maio pelo sorridente ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, chama a atenção, entre outras razões, pela presunção de longo prazo.
“Tem que ficar claro que não pode ser mera declaração de intenção, de vontade, ou medida de curto prazo”, sentenciou, ainda um dia antes do anúncio das medidas, o ministro da Fazenda em sua participação (ao lado do juiz federal Sérgio Moro) no evento “O Brasil que temos para o Brasil que queremos”, organizado pela revista Veja. Meirelles frisou que desejava “sinalizar que a ações a serem tomadas pelo governo não são um fim em si mesmas”, mas “um meio, a rigor o único” de combater o desemprego, devolver confiança aos empresários e “garantir que em cinco, dez ou quinze anos os nossos aposentados receberão seus benefícios”.
Além da desenvoltura típica daqueles que se veem como senhores ancestrais de um Estado para cuja administração não precisam ser eleitos, a fala do ministro exala uma intrigante confiança. Afinal, o que lhe confere tanta segurança de que suas medidas irão vigorar por mais de uma década?
De 1964 para 1968
Os fatos políticos relacionados ao impeachment de Dilma Rousseff por vezes nos induzem a comparações com o processo que instaurou a ditadura de 1964.
A gravidade histórica daquele evento não foi imediatamente percebida por todos. Era corrente, por exemplo, a impressão de que se tratava de uma intervenção passageira. Apesar das dezenas de cassações, das prisões arbitrárias, dos primeiros exilados, do fechamento de sindicatos, da perseguição de lideranças populares e mesmo da tortura, o fato é que, durante certo período, o ambiente político refletiu essa ilusão. Castelo Branco ainda declarava, em seu discurso de posse, que passaria a faixa presidencial em 31 de janeiro de 1966. Os partidos não foram imediatamente dissolvidos, houve eleições para governador em 1965, e não faltava mesmo quem se apresentasse como candidato à sucessão de Castelo.
Não se depõe, entretanto, um presidente da República para permanecer apenas um ano e pouco no poder. Os golpistas de 1964 dispunham de programa político determinado, bem como de disposição e apoio necessário para implantá-lo. Permaneceram no poder e, com o tempo, eliminaram os inimigos políticos externos e internos que pudessem obstaculizar esse programa. Entre esses, contavam-se não apenas ativistas populares, governantes populistas ou militantes socialistas, mas também políticos centristas e moderados, e mesmo aqueles que, com maior ou menor ingenuidade, sustentaram o golpe, julgando tratar-se de um procedimento “cirúrgico” e efêmero, como era o caso de grandes parcelas da classe média, além de antigos presidentes ou governadores, como Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Adhemar de Barros e Juscelino Kubitschek.
Fisiológicos e ideológicos: disputa interna no governo interino
Os golpistas de 2016 têm também um programa político? Ou são simples usurpadores que, dando-se conta de suas evidentes limitações eleitorais, aproveitaram-se da fragilidade de um governo impopular para, sem maiores pretensões que o exercício do mando e o usufruto de suas mordomias, obter o poder que, de outra forma, não lhe seria franqueado?
Sem dúvida, todos eles concordam que se deveria depor Dilma Rousseff. O sentido, porém, do que aconteceu e os rumos futuros possivelmente constituem aspectos de menor clareza e muito menor consenso.
Apesar das convergências, o período de interinidade do presidente Temer dá mostras de que este é um “governo em disputa”, dentro do qual se opõem setores puramente “fisiológicos” a outros mais propriamente “ideológicos”. Para os primeiros, o impeachment foi apenas a forma de atingir os almejados cargos do Executivo federal. Os segundos, contudo, têm motivações mais complexas.
Podemos identificar os fisiológicos, por exemplo, entre aqueles que também se beneficiaram dos governos petistas. Entre muitos outros, figuram nessa lista: os ministros Gilberto Kassab, Luís Eduardo Alves e Leonardo Piccianni; o presidente da Caixa Econômica Federal, ex-ministro (em duas pastas distintas), Gilberto Occhi; o ex-ministro e senador Romero Jucá, sucessivamente líder dos governos FHC, Lula e Dilma.
No âmbito parlamentar, estão organizados principalmente no novo “centrão”, bloco com 218 deputados federais, correspondentes a 42% das cadeiras da Câmara. Segundo matéria da Folha de S. Paulo de 12 de junho, o grupo, “formado por PP, PR, PSD, PTB, PRB, SD, PTN e outras seis siglas menores”, constitui “a força política mais importante da Casa e trabalha para comandá-la nos próximos anos”. Consolidado nos últimos dois anos, o centrão ainda reflete a expressiva influência do presidente afastado, Eduardo Cunha. Neste início de governo interino, demonstrou poder de articulação, por exemplo, na aprovação do megapacote de reajuste do funcionalismo público e, sobretudo, ao impor André Moura (PSC-SE) como líder do governo na Câmara, a despeito da resistência do Planalto, que desejava um nome menos ligado a Cunha.
Ao lado desses setores, entretanto, há outros movidos por interesses mais programáticos. Pode-se incluir nesse grupo: o ministro das Relações Exteriores e Comércio Exterior, José Serra; o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes; o ministro chefe da ressuscitada Secretaria de Segurança Institucional, general Sérgio Echegoyen; o líder do governo no Senado, senador pelo PSDB de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira; o presidente da Petrobras, Pedro Parente; o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. Não são muitos, é verdade; não deixam, porém, de ser influentes e poderosos.
A eles podemos agregar representantes do Poder Judiciário e do Ministério Público. É o caso, principalmente, do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, e do grupo da República de Curitiba, ou seja, o juiz federal Sérgio Moro e os procuradores da Força-Tarefa encarregada da Operação Lava Jato. Não compõem, obviamente, o governo interino, mas, até certo ponto, parecem atuar em sintonia com o programa ideológico. Os inexplicados “vazamentos” de processos sob sigilo de justiça, por exemplo, inserem-se sempre no jogo político. A condução coercitiva do ex-presidente Lula, em 4 de março, animou a manifestação em favor do impeachment programada para 15 de março, que até então parecia esvaziada. A revelação, pelo juiz Moro, dos telefonemas grampeados de Lula, Dilma e outras autoridades do governo anterior coincidiu com a nomeação de Lula como ministro da Casa Civil, obstaculizando-a. Ainda agora, também tiveram impacto político as gravações de Sérgio Machado e o vazamento dos pedidos de prisão, pela PGR, de Jucá, Cunha, Renan e Sarney
Entre os fisiológicos e os ideológicos, há casos intermediários: o próprio Michel Temer, duas vezes eleito vice-presidente na chapa encabeçadas por Dilma; o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, presidente do Banco Central nos dois mandatos do presidente Lula; o ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Moreira Franco, atual secretário-executivo do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Não deixam de apresentar marcas fisiológicas, mas não podem ser simplesmente reduzidos a elas. Com rigor, estão entre aqueles que concentram em si o próprio caráter de ambíguo do governo interino.
Bastante evidente nas organizações de esquerda, a disputa interna é igualmente relevante para os liberais e os conversadores. Também para estes, contradições internas, e não apenas as influências exteriores, podem efetivamente determinar aspectos essenciais de suas escolhas políticas.
Programa liberal-elitista
Em linhas gerais, sem prejuízo para outros aspectos aqui não contemplados, a plataforma dos setores ideológicos do governo Temer prevê:
  • ajuste fiscal estrutural, com diminuição dos gastos sociais;
  • privatização integral ou parcial de dezenas de empresas estatais, acompanhada da abertura da exploração do pré-sal para transnacionais estrangeiras;
  • reforma da Previdência Social e reforma trabalhista, que diminua direitos e enfraqueça os sindicatos;
  • monitoramento, repressão e criminalização crescente dos movimentos sociais;
  • alinhamento maior com a política externa dos Estados Unidos, com consequente distanciamento em relação a governos latino-americanos progressistas (Venezuela, Equador, Bolívia, Cuba) e aos países dos Brics.
Trata-se, em suma, de um programa liberal-elitista, cujo modelo ideal são os Estados Unidos, mas cujo modelo realmente possível é a República Velha.
Golpe dentro do golpe?
Impopular e entreguista, esse programa encontraria evidentes obstáculos para sua concretização em governos democraticamente eleitos.
Por sua própria natureza, os fisiológicos nem o apoiam nem o condenam. Agrada-lhes, naturalmente, o caráter conservador e “elitista” do modelo, mas não se enquadram bem com a rigidez que ele impõe. Movem-se, além disso, pela busca incessante de poder, e o programa liberal-elitista não é o que mais seduz o eleitorado.
Comenta-se, inclusive, que os oportunistas se aliaram aos ideológicos na convicção de que, removido o governo petista, poderiam aplacar a ira punitiva dos fundamentalistas de Curitiba. “Gostamos de você, Lula” – imagina-se o diálogo – “mas hoje, infelizmente, você não pode nos entregar aquilo de que realmente necessitamos: enquanto o PT estiver no poder, a Lava Jato não acaba e é por isso que, um pouco a contragosto (não é a verdade que a traição seja excitante), votaremos pelo afastamento da Dilma (que, com aquela mania de planilhas e aquelas broncas todas contra a incompetência, nunca foi uma das nossas, afinal de contas)”.
Essa postura não deixa de produzir constrangimentos.
Já naquele notável domingo, 17 de abril, a opinião pública levou um choque de realidade com os tragicômicos discursos com que a maioria dos deputados federais ornamentou seus votos favoráveis ao impeachment.
Um mês depois, em seus primeiros dias, o governo interino se viu às voltas com demissões frequentes de ministros, recorrentes desmentidos e mudanças de opinião. Assistiu à reação francamente refratária de artistas, cientistas e intelectuais. Teve de explicar a completa ausência de mulheres em seu primeiro escalão, a audiência concedida pelo ministro da Educação a um notório ator de filmes de sexo explícito, os generosos aumentos salariais com que o Congresso temperou o discurso de austeridade fiscal.
O próprio juiz Sérgio Moro, em seu já citado artigo sobre a Operação Mãos Limpas, comenta, desapontado, que todo o esforço do Judiciário italiano resultou inútil quando, após milhares de prisões e processos, os setores fisiológicos, por meio de um grande “acordão” político, retomaram o controle da situação e fizeram voltar a antiga situação de predomínio da corrupção sistemática. Os procuradores da Força Tarefa de Curitiba também voltam frequentemente a esse tema.
Eis, em suma, o dilema dos ideológicos: para chegar ao poder, precisaram compor com amplos setores fisiológicos; rompendo com eles, condenam-se ao isolamento no Congresso e arriscam-se mesmo à volta de Dilma; mantendo a aliança, porém, perdem credibilidade junto à opinião pública mais esclarecida, bem como aos olhos de seus apoiadores e investidores corporativos, no Brasil e no exterior, comprometendo a própria execução do programa liberal-elitista.
Qual a opção? Desistir do programa? Aderir aos oportunistas? Pode ser. A derrota dos ideológicos, afinal, não é um desfecho impossível. O mais provável, porém, é que as dificuldades tencionem o processo do golpe, de tal maneira que ele tenda a uma nova etapa.
Como em 1965 e 1969, a alternativa dos ideológicos poderá ser a fuga para frente, ou seja, o aprofundamento da estratégia golpista, voltada, agora, contra o inimigo interno. Vencidos os subversivos, chegou a vez dos canalhas. Primeiro com Goulart e Luís Carlos Prestes; depois com Jânio Quadros e Adhemar de Barros. O golpe dentro do golpe.
Quem está vencendo a disputa interna no governo interino
O governo interino, não resta dúvida, tem sido pródigo em concessões aos fisiológicos. O notável déficit de R$ 170 bilhões em 2016, por exemplo, viabilizou a aprovação, na madrugada de 2 de junho, de aumentos salariais para funcionários dos três poderes, em geral os de renda mais alta, com destaque para a elevação do teto de remuneração no serviço público, que beira agora os R$ 40 mil, com provável repercussão para os proventos de deputados e senadores.
Apesar dessa fachada, todavia, os oportunistas têm colhido algumas derrotas amargas. A primeira é a instabilidade da equipe ministerial. Em três semanas, escutas realizadas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado levaram o governo a demitir Fábio Silveira, do emblemático Ministério da Transparência, e, sobretudo, a promover a desmoralizante queda do ministro Romero Jucá, personagem de vários escândalos e investigado pela Lava Jato. Ainda agora encontram-se ameaçados o advogado-geral da União, Fábio Osório, a secretária nacional de Mulheres, Fátima Pelaes, e o já mencionado ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves [que caiu antes da publicação da matéria…].
Mais recentemente, tem-se dado a perseguição jurídica e policial das principais lideranças do PMDB, tirante o presidente interino. O clímax desse processo iniciou-se em 8 de junho, quando um estranho “vazamento” tornou pública a intenção do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em pedir, com base nas gravações de Sérgio Machado e talvez em outras provas, a prisão não apenas de Eduardo Cunha e Romero Jucá, mas também do presidente do Senado, Renan Calheiros, e do ex-presidente da República, José Sarney.
Não foram, naturalmente, os atuais oposicionistas que enredaram Romero Jucá, incentivaram Sérgio Machado a ligar o gravador, insuflaram o STF a suspender o mandato de Eduardo Cunha, muito menos convenceram Janot a pedir a prisão dos “quatro do PMDB” ou vazaram essa informação à imprensa.
Em todos esses casos, tratou-se sempre de fogo amigo.
Oportunistas empresariais
Observe-se, de passagem, que o combate aos oportunistas, embora recaia essencialmente sobre o mundo político, iniciou-se, na realidade, na área empresarial, com a perseguição jurídica e financeira aos grupos que compuseram com o petismo e financiaram suas campanhas eleitorais, destacadamente as corporações transnacionais que atuaram em sintonia com o subimperialismo esboçado nos mandatos do presidente Lula.
Enquadram-se nesse caso empresas como OAS, Queirós Galvão, UTC, Camargo Correia, Andrade Gutierres e – símbolo maior do lulo-empresariado bem-sucedido – o Grupo Odebrecht, com suas muitas ramificações nacionais e internacionais, não apenas na construção de obras públicas, mas também em setores estratégicos, como a petroquímica e os combustíveis.
Todos acabaram nas garras da Operação Lava Jato, do juiz Sérgio Moro e da Força Tarefa de procuradores da República de Curitiba. Motivada também pelos ciúmes do empresariado paulista (a Odebrecht é baiana), o fato é que a criminalização das construtoras transnacionais brasileiras constitui um caso ímpar de disposição de cortar na própria carne, de extirpar as maçãs podres da burguesia.
A volta dos subversivos
O eventual fechamento do processo democrático atual teria, entretanto, de apresentar outro objetivo, além da neutralização dos setores fisiológicos que compõem o próprio governo interino. Para ser efetivo, o pretexto para sua consumação poderia combinar duas táticas.
De um lado, alerta-se para a necessidade de concluir o combate à corrupção sistêmica, ante o risco de um “acordão” político espúrio liderado pelos oportunistas. Na outra ponta, denuncia-se a crescente subversão interna supostamente promovida por agrupamentos políticos radicais, que, inconformados com a perda da influência de que gozariam no governo deposto, demagogicamente negam a legitimidade do impeachment, ameaçando, desse modo, a estabilidade das instituições democráticas e mesmo a atuação autônoma do Poder Judiciário.
Aqui, novamente, o paralelo se dá com a ditadura de 1964.
No final dos anos 1960, ante a persistência da crise econômica, enquanto ainda não se consolidava o milagre brasileiro, o governo Costa e Silva viu-se pressionado em duas frentes. Na oposição moderada, esboçava-se a chamada Frente Ampla, fruto do inusitado compromisso político entre João Goulart, Juscelino e Carlos Lacerda, que unificava democratas, socialistas moderados, populistas e golpistas arrependidos: representava, na visão dos generais, o complô dos fisiológicos. Mais à esquerda, crescia a atuação clandestina e revolucionária de pequenas organizações desmembradas do PCB e da Polop, bem como algumas mobilizações de massa de jovens e de operários, ao sabor do Maio de 68 francês: eram os inimigos internos.
Somados, os dois campos serviram de mote para que a ditadura, no dizer do ex-ministro Jarbas Passarinho, mandasse “às favas todos os escrúpulos de consciência” e, em 13 de dezembro de 1968, promulgasse o Ato Institucional número 5, completando, assim, a instauração do sistema autoritário que lhe permitiria a plena realização do programa em nome do qual os ideológicos de então empreenderam o golpe de 1964.
Embora bastante distinto, o cenário atual também apresenta a possibilidade desse duplo desgaste.
No campo político, esboça-se, ainda de forma embrionária, a possibilidade de negação, pelo Senado, da consumação do impeachment, abrindo a perspectiva de volta da presidente Dilma, com o compromisso de, tão rapidamente quanto possível, convocar novas eleições presidenciais antes de 2018. Alertados pela continuidade da crise e do desemprego, atentos à impopularidade do pacote fiscal de Meirelles e, sobretudo, alarmados pelo prosseguimento da Lava Jato, muitos dos fisiológicos poderiam aderir a essa proposta, fortalecendo a possibilidade concreta de término da janela de oportunidade representada pelo governo Temer. Mesmo que não o façam, podem cobrar cada vez mais caro pelo seu apoio, exigindo um rol crescente de concessões e relutando em votar a favor de medidas impopulares como a reforma trabalhista e a previdenciária, o que acabaria por comprometer os fundamentos do programa liberal-elitista.
Além disso, dado o fraco desempenho dos candidatos tucanos nas sondagens mais recentes, não está claro como os fisiológicos pretendem se comportar nas eleições presidenciais de 2018. Com todo o desgaste provocado pelo impeachment de Dilma, Lula ainda lidera para o primeiro turno, e o senador Aécio Neves chegou mesmo a experimentar queda de 10 pontos percentuais em poucos meses. Contra Lula, a opção hoje mais viável seria a pouco confiável ex-senadora Marina Silva. E existe ainda a possibilidade de crescimento de Ciro Gomes, à esquerda, e de Jair Bolsonaro, à direta. Não se trata, em todos os cenários, de uma perspectiva exatamente animadora.
No campo popular, a crescente insatisfação, ainda um tanto difusa, contra as trapalhadas e contradições do governo Temer e sua incapacidade de debelar rapidamente a crise econômica, poderia favorecer certo avanço das manifestações de massa e a consequente radicalização da intervenção política de movimentos sociais como o MST, o MTST, a CUT, a UNE e, em menor grau, de grupos políticos à esquerda da direção petista, como o PSOL e, de certo modo, o PCdoB e algumas tendências internas do próprio PT.
Como nos anos 1960, essa convergência de dificuldades político-eleitorais com o acirramento das manifestações populares poderá aguçar os setores ideológicos, para que, em nome da consolidação de seu programa, mantenham o poder político, mesmo que às custas de alguns eventuais escrúpulos de consciência.
Efeitos de longo prazo
Se os ideológicos lograrem cassar o registro partidário do PT, inviabilizarem a candidatura de Marina Silva, desmobilizarem, por bem ou por mal, as organizações populares, enquadrarem os oportunistas e lançarem efetivamente as bases para o programa que, segundo eles próprios admitem, demanda no mínimo dez ou quinze anos para sua implementação – então, evidentemente, teremos assistido, a partir de 2016, ao início de um processo análogo ao que, deflagrado em abril de 1964, realizou-se plenamente apenas em dezembro de 1968.
Mas, mesmo se o golpe não puder prosseguir, se Dilma voltar ou houver eleições antecipadas, e Temer e os membros do governo interino tiverem de se recolher ao ostracismo político, mesmo assim isto que estamos vivendo em 2016 passará para a história não como uma derrota completa, mas com as características que hoje atribuímos, por exemplo, à tentativa de impedir a posse de Juscelino e interromper o processo democrático, em novembro de 1955. Um gesto fracassado, é verdade, mas preparatório para uma ação futura.
Num caso ou no outro, não será algo passageiro. Marcará o Brasil pelas próximas décadas. Qual a marca, dependerá, naturalmente, da organização e da determinação deles, mas, sobretudo, da nossa organização, nossa disciplina, nossa firmeza e coerência programática, nossa disposição de tecer conexões externas e preservar a unidade interna.
Fonte: http://outraspalavras.net/

“Governo ilegítimo de Temer é contra os pobres”, diz Patrus



Foto: RafaB – Gabinete Digital/PR
 
 

“Todos os atos desse governo ilegítimo, que chegou ao poder através de um golpe, apontam claramente: é um governo contra os pobres”, enfatizou Patrus.

Os ataques dos golpistas ao Bolsa Família também foram abordados por Patrus, que implementou o programa quando foi ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome do primeiro governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“A presidenta Dilma, numa medida justa, de respeito aos beneficiários do Bolsa Família, determinou um reajuste de 9% no valor do benefício e eles não pagaram esse valor. E eles estão dizendo claramente que vão reduzir o Bolsa Família. É um governo que veio, realmente, a serviço dos grandes interesses do capital internacional e dos seus clássicos tradicionais serviçais no Brasil”, afirmou.

Leia a entrevista completa:

Com a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), como ficam as políticas da área?

Estou convencido, com base nos fatos, que nós tivemos no Brasil um golpe contra a democracia para atingir os pobres, para penalizar os pobres e reduzir, senão eliminar, as políticas públicas sociais voltadas para os pobres, trabalhadores e trabalhadoras de baixa renda, que nós tivemos no Brasil, especialmente nos últimos anos, nos governos Lula e Dilma.

O fim do Ministério do Desenvolvimento Agrário mostra claramente o descompromisso total desse desgoverno, que é um governo ilegítimo, com relação à reforma agrária e mesmo com relação ao desenvolvimento da agricultura familiar. Nós sabemos que a agricultura familiar cumpre um papel fundamental na alimentação do povo brasileiro

Quais as políticas e os programas que foram mais atingidos por essa extinção do MDA? 

Programas fundamentais para o desenvolvimento da agricultura familiar no Brasil estão sendo penalizados, tendo seus recursos retirados, como é o caso do PAA, o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar.

O PPA é um programa estratégico porque trabalha nas duas pontas. De um lado ele garante à agricultora e ao agricultor familiar o preço justo na colheita, e na outra ponta, ele atende, com os alimentos adquiridos, famílias e comunidades em situação de vulnerabilidade alimentar.

O Pronaf, o Programa Nacional de Fortalecimento de Agricultura Familiar também está sendo penalizado. O Programa Mais Gestão, que era um programa forte de apoio às cooperativas, também foi praticamente eliminado, penalizando em torno de 170 mil agricultores familiares e extinguindo em torno de mil contratos que estavam beneficiando, dando apoio de assistência técnica às cooperativas.

Agora, além dessa operação desmonte das políticas de apoio e desenvolvimento da Agricultura Familiar, outras medidas no campo social estão sendo tomadas também. Por exemplo, o desgoverno, o governo ilegítimo e golpista do senhor Michel Temer, tem anunciado que vai desvincular as aposentadorias rurais, especialmente o BPC, o Benefício de Prestação Continuada dos reajustes do salário mínimo.

O BPC é um programa que atende pessoas pobres, muito pobres. Trabalha com pessoas idosas, com mais de 65 anos, e pessoas com deficiência, incapacitadas para o trabalho e que sejam pobres. É gente que tem renda em torno de um quarto do salário mínimo. São essas pessoas que estão sendo atingidas, penalizadas, por esse desgoverno.

Ministro, como fica a reforma agrária agora com esse governo golpista?

Não há nenhuma chance. A reforma agrária está ligada a uma concepção de desenvolvimento da agricultura familiar, de nós traduzirmos na prática os princípios constitucionais da função social da propriedade das riquezas, na perspectiva de construirmos uma pátria mais acolhedora, mais justa, mais solidária.

A reforma agrária está vinculada a outras reformas, também estruturantes, como a reforma urbana, na perspectiva do direito à moradia, de consolidarmos os espaços públicos, da preservação dos recursos naturais, nesse momento especial da água.

As reformas agrária e urbana se ligam também com a reforma tributária, na perspectiva de nós estabelecermos impostos progressivos, no sentido que os ricos paguem mais e possam contribuir mais e melhor para o desenvolvimento do País e os pobres sejam menos penalizados.

Essas reformas apontam na perspectiva do desenvolvimento e da justiça social, do respeito à vida e da dignidade humana, que constitui a base de um projeto de nação. Porque a primeira condição de uma nação é incorporar, é integrar em uma vida digna e promissora todas as suas filhas e filhos, tornando realidade o verso do Hino Nacional brasileiro: ‘dos filhos deste solo és mãe gentil’.

E todos os atos desse governo ilegítimo, que chegou ao poder através de um golpe, apontam claramente, é um governo contra os pobres, a serviço dessa entidade nova, misteriosa, esse novo deus, que é o mercado.

Na sua avaliação, como fica a interlocução do governo com os movimentos sociais, agora com esse governo golpista? Há interlocução de Temer e seus ministros com os movimentos?

Está muito claro. O descompromisso desse governo com os pobres, com as questões sociais, implica automaticamente um descompromisso com as entidades e os movimentos sociais. Lembrando sempre que esse é um governo ilegítimo.

Uma experiência muito intensa que nós tivemos no Ministério do Desenvolvimento Agrário foram os nossos encontros periódicos com os movimentos sociais, que nós intitulamos ‘Diálogos da Terra’.

Todas as entidades, todos os movimentos sociais ligados à luta pela reforma agrária, pela função social da terra, pelo desenvolvimento da agricultura familiar, também entidades e movimentos ligados a questão da ecológica, a agroecologia, o cooperativismo, as populações e comunidades tradicionais. A cada três meses nós passávamos uma tarde inteira conversando com essas entidades e com esses movimentos.

O senhor foi o responsável por implantar o Programa Bolsa Família, na primeira gestão do presidente Lula. Qual a sua opinião dessas primeiras iniciativas de Temer sobre o Bolsa Família?

Na mesma linha dos ataques está o Bolsa Família. A presidenta Dilma, numa medida justa, de respeito aos beneficiários do programa, determinou um reajuste de 9% no valor do benefício e eles não pagaram esse valor.

Eles estão dizendo claramente que vão reduzir o Bolsa Família. Assim como vão reduzir também, vinculado à agricultura familiar, toda a parte da segurança alimentar e nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, como os restaurantes populares, as cozinhas comunitárias, os bancos de alimentos.

São políticas que nós implantamos quando fui ministro do Desenvolvimento Social no governo do presidente Lula. E outros programas também estão sendo visivelmente cerceados, ainda que eles façam um esforço para passar uma imagem diferente.

Mas é muito claro, por exemplo, as restrições ao Minha Casa Minha Vida, especialmente ao Minha Casa Minha Vida Rural, esse extraordinário programa habitacional, se não possivelmente um dos maiores do mundo, seguramente o maior programa habitacional da história do nosso País. E outros programas.

É um governo que veio, realmente, a serviço dos grandes interesses do capital internacional e dos seus clássicos tradicionais serviçais no Brasil.

Quem são os mais atingidos por esse golpe?

Sem nenhuma dúvida são os pobres. As trabalhadoras e os trabalhadores de baixa renda, na cidade e no campo. As agricultoras e os agricultores familiares.

A maneira quase que atropelada, ainda sôfrega, com que o desgoverno foi para cima dos movimentos sociais mostra isso. É a redução do Bolsa Família, é a desvinculação do Benefício de Prestação Continuada, é a extinção das políticas públicas vinculadas à agricultura familiar, são as restrições ao Minha Casa Minha Vida. É toda uma política de submissão total aos interesses do grande capital.

Inclusive, que é muito grave também, a desnacionalização total da economia brasileira. A submissão total do País aos interesses econômicos internacionais.

Estão sendo votados aqui no Congresso, a toque de caixa, sem nenhum debate, sem nenhuma participação da sociedade brasileira, projetos desnacionalizando completamente as empresas de transporte aéreo, a total desnacionalização da saúde pública. Grandes grupos internacionais estão comprando hospitais e cada vez mais, com isso, incidindo sobre as políticas públicas do SUS.

Essa é outra questão muito séria. Os sinais que eles estão demonstrando é de privatização da educação, onde colocaram um político historicamente comprometido com os interesses particulares, até pelo partido ao qual ele pertence, que é historicamente ligado aos interesses privados, contra qualquer presença efetiva do Estado brasileiro.

Quais as consequências dessa crescente desnacionalização?

Essa privatização crescente da saúde, da educação, da cultura, leva a uma perda da identidade nacional.

Então nós temos aí duas grandes perdas: de um lado, as perdas sociais, as perdas que incidem sobre os pobres, trabalhadores, gente que luta com dificuldade, os que têm fome e sede de justiça, que querem um Brasil melhor.

De outro lado, a incidência é sobre o próprio País, é sobre a pátria brasileira, no sentido que nós não tenhamos um projeto de nação, que pressupõe uma economia nacional que vai se consolidando e, sobretudo, preservando a nossa identidade, a nossa cultura e os nossos valores.

Por isso nós temos que trabalhar fundo, com determinação para que esse governo ilegítimo não prevaleça.

E como fazer para que ele não prevaleça?

Eu penso que nós temos no Brasil hoje dois grandes desafios. De um lado, articular todas as forças democráticas para resistirmos ao golpe, que quebrou as regras do jogo, para restabelecermos no País as normas, as regras constitucionais e democráticas, o Estado Democrático de Direito, que é uma grande conquista que nós tivemos.

E de outro lado, nós unirmos as pessoas de boa vontade, as pessoas efetivamente comprometidas com o nosso País e com as gerações presentes e futuras, em torno dos projetos sociais, protegermos o que está aí, que eles querem destruir, e ao mesmo tempo recolocarmos os temas fundamentais para o futuro do Brasil.

E também, neste momento temos que ter adesão e compromisso com a volta da presidenta Dilma.

Hoje, para que o Estado Democrático de Direito e a democracia no Brasil sejam preservados, isso pressupõe uma coisa: que a presidenta Dilma reassuma. Porque ela foi afastada de uma forma ilegítima, por um golpe. Ela não tem nenhum processo jurídico e não há nada comprovado contra ela. Então o fim do golpe, de um governo ilegítimo, e a volta da presidenta.

Precisamos fazer a defesa vigorosa da volta do Ministério do Desenvolvimento Agrário, com seus conteúdos. A defesa vigorosa de programas sociais que nós implantamos no Brasil, como o Bolsa Família. A defesa do BPC, que ele continue vinculado aos reajustes do salário mínimo, por uma questão de justiça social, de respeito a essas pessoas e famílias, que são muito pobres.

Estamos lutando contra a efetivação de um golpe de direita, um golpe conservador dado em nome dos interesses do capital, dos grandes interesses econômicos que eu disse e quero reiterar: dos grandes interesses econômicos internacionais e os seus históricos serviçais aqui no Brasil.

É um golpe a serviço do mercado, do dinheiro. Ele tem nome, endereço, ele é bem identificável e tem deixado claro a que veio, com as suas propostas, com as suas iniciativas, com as medidas profundamente antidemocráticas, antissociais e antipopulares. E nós estamos lutando em nome de um projeto nacional.

É fundamental, então, que as forças democráticas, que nós podermos chamar de as forças de esquerda ou de centro-esquerda, o chamado campo democrático popular, as forças progressistas, que nós todos estejamos unidos. Forças políticas, sociais, econômicas, culturais. Em torno desse compromisso com a democracia e a justiça social. Há uma disputa de projetos no Brasil hoje, como nós tivemos em 64.

Por isso que eu acho que nesse momento nós estamos lutando contra um golpe que é um golpe contra o povo brasileiro.



Fonte:Agência PT